quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Reflexão


Achei que quando meu computador voltasse do passeio (era pra voltar só no ano que vem) meu primeiro post fosse ser uma grande comemoração. Mas hoje, quando ele chegou, só conseguia pensar na história que a Zenaide me contou. Talvez por conta do cansaço causado pela virose que peguei, ou talvez por causa do meu "ligeiro" desequilíbrio hormonal, tentei não pensar na história de novo e não quis contar pra ninguém com medo de começar a chorar e não conseguir parar. Não funcionou - foi só deitar e não ter mais nada pra me ocupar que caí no pranto. E foi assim que desisti de dormir e resolvi postar, pra ver se colocar o trambolho pra fora resolve meu problema de falta de sono e excesso de lágrimas.

Quem me conhece sabe que eu sou uma mãe severa. Às vezes acho que sou severa demais e outras vezes acho que sou de menos, mas sou severa. Não sou a pessoa mais carinhosa do mundo, mas sou o mais carinhosa possível com o meu filho. Às vezes isso me basta, às vezes não. E pra fazer minha consciência pesar menos (toda mãe tem um truque desses), me convenço de que eu não posso acertar tudo e que meus erros fortalecem meu filho.

Hoje Zenaide chegou contando que o marido tinha chegado do trabalho (ele trabalha em um hospital público "x") com a cara tão inchada que parecia que tinha apanhado. Quando ela perguntou o que tinha acontecido ele respondeu que tinha chorado muito. Zenaide resumiu a questão assim: "Olha que o Zé é homem, muito machão, e pra chorar desse jeito foi coisa feia".

O "causo" foi o seguinte: Um casal chegou no hospital com a filha (do tamanhinho do Caique) de tarde. Eles estavam desesperados e aflitos, mas não aparecia ninguém para atendê-los. Quase de madrugada, o Zé e um médico foram ver a menina. E foi nessa hora que o Zé disse que a menina agarrou com uma mãozinha na mão da mãe e a outra na mão do pai e sussurou "Mamãe, papai..." e morreu. Assim. Zé ficou revoltado, chutou o balcão e tudo mais, mas o pessoal do hospital correu pra fazer ele ficar quieto. Então ele saiu e voltou pra casa com a cara inchada de tanto chorar. Zenaide concluiu a história assim: "O Zé já viu muita coisa feia acontecer naquele hospital, mas nunca vi ele ficar assim... "

Na hora só consegui pensar em todas as vezes que Caique veio me procurar choramingando por um motivo ou outro (medo, dor, cansaço) e eu respondi: "Tá tudo bem, a Mamãe tá aqui", ou "A Mamãe te protege, não precisa ter medo, deixa de ser bobo", ou "Já vai sarar"... E aí caiu a ficha. Por mais que eu vigie, eduque, cuide, não posso proteger ele de tudo. Posso deixar ele mais forte pra algumas coisas, mas não posso torná-lo invencível. E passei o resto do dia me sentindo impotente e meio que inútil. Eu sei, a cabeça repete de novo e de novo pra eu deixar de ser besta, mas os hormônios, no momento, estão gritando mais alto, muito mais alto (e deve continuar assim pelos próximos 8 meses).

Então decidi que vou me dar um presente de Natal. Eu me dou permissão pra, de vez em quando, mimar meu filho até não poder mais, sem me preocupar se vou estragar o pequeno, se ele vai ficar insuportável, se as outras pessoas vão achar ele chato e mal-educado ou se vão me achar uma péssima mãe. De vez em quando vou deixar ele achar que ele é a pessoa mais importante do mundo e vou me deixar pensar que eu posso proteger ele de qualquer coisa e de qualquer um. De vez em quando, só de vez em quando, vou deixar ele achar que ele é super poderoso e, só de vez em quando, vou deixar ele me convencer de que ele é indestrutível. Começo amanhã...

3 comentários:

Angie disse...

Só você para me fazer chorar essa hora do dia...

...acho que você está certíssima - eu faço o mesmo:O)

Amo vocês!

Glorinha disse...

Queridíssima Kelly. Que post mais lindo! A morte ou, melhor dizendo, a percepção sensível de que ela existe e nos ronda desde o dia em que demos o primeiro suspiro, é mesmo capaz de mudar tudo. Quando alguém descobre que vai morrer, sente-se livre para "radicalizar" e ser feliz, afinal, vai morrer e tem esse direito. Mas... e quem é que não vai morrer? Não devemos todos nos dar o direito de sermos felizes? Eis que a morte surge como uma grande aliada, que nos obriga a viver a vida e não nos esconder atrás dela! Então, penso sim que pai e mãe devem educar, ou sejam, ensinar os filhos a serem felizes. Ensinarem valores e princípios... E quem é feliz só com críticas? Precisamos mesmo nos sentirmos de vez em quando a pessoa mais importante do mundo, e também de extrapolar limites, e de quebrar regras... tudo, claro, com muita educação e respeito ao próximo, mas jamais com submissão e excesso de preocupação com que os outros vão pensar de nossas "loucuras"... afinal, quem é que paga as nossas contas no fim do mês?

Carla disse...

Kelly,
Acabo de escrever um imenso comentário e apagar tudinho. Sim, porque qualquer coisa que eu dissesse aqui, seria ilegítimo. Então só quero dizer que li algumas vezes o que você disse, li com calma pra tentar entender direito o que é amor de mãe...

©2007 Suzanne Woolcott Por Elke di Barros