sexta-feira, 17 de julho de 2009

Kilda Mara

Kilda Mara é uma boa pessoa - boa amiga, boa filha (ainda acredita naquele mandamento que diz "honrar pai e mãe" apesar de tudo), boa aluna, profissional dedicada, católica de carteirinha - que, como resultado de uma série de atos desesperados, veio parar aqui na minha casa.

Kilda sofreu abusos de várias formas, inclusive do destino. Kildette's é portadora de ataxia (e demorou pra eu lembrar do nome desse troço). Seguindo a lógica dos ensinamentos espiritualistas, isso é cármico. Na minha cabecinha um tanto simplista cheguei a comentar com ela que ela deve ser uma alma meio burrinha - bastava a ataxia, não precisava ter pedido também pra nascer filha de pais omissos. Na cabeça católica dela, nada disso faz sentido, mas ela continua se esforçando como sempre se esforçou.

Quando a conheci, na época de faculdade, ela nunca havia matado aula. Juro. Nossas aulas eram no terceiro andar e o elevador vivia quebrado. Kilda sempre dava um jeito. Subia as escadas no colo de alguém, enquanto outra pessoa carregava a cadeira de rodas. Quando usava a cadeira motorizada, deixava a cadeira no térreo mesmo e assistia as aulas numa cadeira normal. Às vezes chegava lá em cima só pra descobrir que o professor havia faltado e ninguém ia ter aula. Convenci a minha amiga a matar aula pela primeira vez numa dessas ocasiões. Falei pra ela que ela tinha a desculpa perfeita pra matar aula sem tomar falta e que ela devia aproveitar, já que eu tinha que quebrar a cabeça e me desdobrar em quatro pra conseguir o que ela já tinha na mão, ou melhor, nas pernas. Daí pra frente a coisa descambou. Ela não chegava a matar tantas aulas quanto eu, mas de vez em quando o elevador pifava e a gente ficava na lanchonete ao invés de subir pras aulas. E foi assim que eu matei minha vontade de experimentar a cadeira motorizada dela - a cadeira dela tinha até uma velocidade turbo que fazia o troço empinar se você empurrasse a alavanca de uma vez.

Kildette's não bebe, mas fui eu quem arrastou ela pro barzinho pra ficar tomando coca-cola enquanto a gente bebia cerveja. Lembro até hoje a primeira vez que fui buscar a dita cuja na casa dela pra gente sair. A mãe dela me olhou meio que de cima a baixo e falou, "Vocês não preferem ficar aqui? Sair com a Kilda dá muito trabalho..." E eu respondi, "Dá não. Com a Kilda no meu carro eu posso parar nas melhores vagas..." A mãe da Kilda é espírita e acho que na cabecinha dela (muito mais simplista que a minha), a filha só está passando o que ela mesma pediu...

Que fique bem claro que eu não sou alma caridosa por natureza. Amizade é troca, apesar da Kilda achar que ela não muito o que oferecer. Eu era a carona, o carro, o meio de locomoção 'de grátis'. Kildette's, por sua vez, era aquela vaga na porta de tudo, primeiro lugar na fila de banco, etc., etc... Ela queria sair, eu ia buscar. Eu tinha que ir pagar conta, eu ia buscar. Pra fazer a matrícula da faculdade então a Kilda era literalmente uma mão na roda.

Andar com a Kilda me rendeu umas caras tortas e olhares de desdém, às vezes de raiva, não que eu me importasse - nunca dei muita atenção pra esse tipo de coisa, mas a Kilda ficava um tanto preocupada e tentava me defender dos comentários maldosos. O lance da Kilda é que além da cadeira de rodas, ela tem cara de criança meiga, o que desperta nos outros um instinto protetor. Nos outros, em mim não. Quando ela me enchia o saco, eu ameaçava fazer ela voltar de cadeira de rodas pra casa. Quando meus braços ficavam cansados de carregar aquela pilha de livros de psicologia que eu nunca cheguei a ler, colocava tudo no colo dela. Quando ela usava a cadeira motorizada, eu pegava carona na parte de trás pra não ter que andar entre os blocos da faculdade. Quando alguém chegava pra perguntar em voz baixa: "O que é que ela tem?", eu respondia: "Preguiça..."

Quando eu encontrei o Templo que agora freqüento (e me encontrei lá), Kildette's estava lá, boa amiga e católica pra me 'alertar'. A amiga foi maior que a católica. Foi na festa de aniversário do dirigente do Templo, no meu casamento e no batizado do meu filho, apesar da orientação que recebeu do padre pra cortar os laços de amizade comigo.

E assim a gente foi levando uma amizade de mais de 10 anos. Hoje ela está aqui em casa, me dando trabalho com a educação que ela recebeu da mãe de achar que dá mais trabalho que o resto do mundo. Ela se acha, né?...

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